Dentistas salvam vidas nas UTIs

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Nas UTIs, dentistas previnem infecções que começam na boca e podem levar à morte.

Presença desses profissionais na linha de frente do combate à doenças infecciosas é capaz de evitar doenças como a pneumonia associada à ventilação.
Por Audrey Furlaneto

Há mais de um ano, Denise Abranches chega ao Hospital São Paulo por volta de 7h. Vai direto para a paramentação e entra na primeira UTI ainda pela manhã. Costuma se apresentar ao paciente intubado, mesmo sabendo que ele está inconsciente, e assim explica seu trabalho:

— Olá, eu sou a doutora Denise. Sou chefe da Odontologia do hospital e estou aqui para cuidar da sua boca. Sei que você está lutando, e nós estamos trabalhando para te ajudar nessa luta. Primeiro, vou fazer uma limpeza na sua boca e olhar se está tudo bem. Pode confiar em mim.

A cena se repete ao longo de todo o dia, enquanto a cirurgiã dentista percorre os 73 leitos de UTI ocupados por pacientes no Hospital São Paulo. Há 23 anos na instituição, Denise Abranches viu seu trabalho ser transformado. Ela agora passa ao menos 10 horas por dia no trabalho, almoça dentro do carro, no estacionamento (“para não tirar a máscara perto de ninguém”, explica), passou aniversário, Natal e Ano Novo no hospital e, quando retorna à casa, exausta, precisa tomar remédio para, como diz, “apagar da memória as cenas do dia”. Quando finalmente pega no sono, não raro sonha que é intubada. No dia seguinte, às 7h, está de volta ao hospital.

— Eu ponho a mão na boca do paciente contaminado, ponho a mão no vírus. A carga viral na saliva é alta. Para os médicos e técnicos de enfermagem, é um imenso risco colocar a mão na boca. Esse é o meu trabalho, não deles. E enquanto eu estiver de pé, estarei aqui cuidando do paciente que houver — diz a dentista, sem esconder as lágrimas de cansaço e tristeza.

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‘Perdemos colegas’

Em março passado, além de ver o número de leitos do hospital dobrar, Abranches perdeu a assistente, com quem trabalhava havia seis anos. No Hospital São Paulo, ela atende com outros 11 dentistas, além de oito residentes.

— Perdemos pacientes e colegas todos os dias. Sou dentista, não sou intensivista. Não estava preparada para lidar com a morte assim. Na faculdade, a gente pensa que vai trabalhar para deixar o sorriso das pessoas mais bonito. Agora, nossa luta é para que as pessoas sobrevivam.

O trabalho dos dentistas nas UTIs, ela lembra, é fundamental para conter ou impedir eventuais infecções que poderiam agravar o quadro da doença — principalmente a pneumonia associada à ventilação (PAV), uma infecção pulmonar comum entre os que estão sob uso de ventilador.

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Odontologia hospitalar

Um estudo publicado no International Dental Journal, em 2018, mostrou que o cuidado odontológico, desde a simples escovação até restaurações, preveniu 56% das infecções respiratórias, como a pneumonia, em pacientes em ventilação mecânica. Ainda assim, são poucos os profissionais atuando na chamada Odontologia Hospitalar. Segundo o Conselho Federal de Odontologia, há 2.120 dentistas hospitalares no país. Não existe uma lei federal que obrigue hospitais públicos a contratar dentistas, embora muitos tenham a figura do cirurgião buco maxilo, que, fora do contexto de pandemia, costuma ser acionado em casos de traumas. O trabalho de higiene bucal nas UTIs em geral é realizado por enfermeiros e técnicos de enfermagem.

No Rio de Janeiro os coordenadores da Odontologia Hospitalar na RioSaúde decidiram dar cursos para enfermeiros e técnicos a fim de replicar procedimentos básicos de higiene oral durante a pandemia, o que já contribui para reduzir problemas causados pela intubação prolongada, como a candidíase oral. O contato do tubo com lábios ressecados pode abrir fissuras, e até mesmo a hidratação labial pode prevenir a herpes ou infecções que chegariam até a corrente sanguínea.

— Mas o que os técnicos não conseguem fazer é a remoção de um foco infeccioso, que é trabalho para um dentista hospitalar — explica Ricardo Pimentel, coordenador da Odontologia Hospitalar a RioSaúde, ao lado de Daniela Fagundes.

Os dois têm percorrido hospitais públicos da cidade para ensinar equipes de enfermagem e, também, para ajudar no atendimento de pacientes intubados, enquanto ainda não está implementada no município do Rio uma rede de dentistas hospitalares.